14 maio 2011

O empate que virou bandeira!



Poderia ser apenas mais um jogo de futebol, poderia.

Dois gols de cada lado, quatro gols ao todo. Dois gols de Washington e dois gols de Tiago Neves. Simples assim, um empate. Porém nada é simples no futebol e muito menos no Brasil, com direito as expulsões do Luxemburgo e de Ronaldo Angelim o jogo foi arretado, a PM fez a parte dela, metendo o escudo nos jogadores, verdadeiramente um show de horrores, um circo que resultou na desclassificação do Flamengo.

O fato é que esse jogo não acabou no apito do juiz, ele continuou nas ruas e principalmente nas redes sociais.

Percebe-se que hoje qualquer analfabeto tem perfil no Twitter, não é critério saber escrever, muitos entendem o código, mas não fazem noção alguma do sentido das letras seqüencialmente, ou seja, não entendem o que é uma palavra, eles regurgitam verbos, apontam lacunas de pensamentos impróprios, muitos não tem capacidade de formular uma frase de autoria própria. Clarice Lispector e Buckowski já foram “tweet hits”. Lastimável, escusado e vergonhoso, os analfabetos virtuais estão munidos de frases prontas, críticas sem fundamentos e absolutismos.

Não que se exija muito destes pobres seres que habitam as madrugadas virtuais oferecendo seu nada. Não. Não se exije nada dessa galera, contudo é soberbo da parte dos pseudo-pensadores gerarem uma onda de ataques a uma raça especifica devido à derrota do seu time de futebol.

E o analfabetismo é contagioso, viral eu diria. Basta um #hashtag ovacionando ou denegrindo alguém e voilà instantaneamente está feito o caos de desinformação generalizada. Um telefone sem fio dos infernos...

Dá-se muita atenção ao ócio das pessoas.

Sem ter o que fazer o analfabeto virtual segue vagando a mercê de uma caridade online, um RT amigo, um “curti” solidário, por isso, por necessitar tanto da proliferação de sua inutilidade individual, começa a gerar polêmicas, pois estas são receita do sucesso na rede.

Dissipam inverdades provenientes de preconceitos aos nordestinos, palestinos e tantos outros hinos que nada interferem ao marasmo coletivo. Fica nítido que o analfabeto virtual entende a codificação da língua, contudo é incapaz de compreender uma sentença, assim sendo dispara a ferro e fogo suas frases sem ter a mínima idéia do que elas representam em uma conjuntura geral.

Flamenguistas (via twitter) agridem os nordestinos com palavras que eles mesmos desconhecem o sentido. Não é de hoje que a culpa de todos os males sulistas vem sendo depositada na migração  Norte/Nordeste/Sudeste/Sul. Dissipa-se, mas não entendem que o Nordeste foi líder da exportação açucareira no Brasil, sendo o primeiro pólo de desenvolvimento econômico quando ainda éramos colônia lusitana. O declínio da produção açucareira no final do século XVIII refletiu um desinteresse em renovação tecnológica característico da produção escravista que caracterizou o Nordeste em suas diversas atividades.

Hoje o nordeste está e terceiro lugar na arrecadação do produto interno bruto (PIB) pouco a menos que o Sul do país:
  • Região Sudeste: R$1.501.185.000
  • Região Sul: R$442.820.000
  • Região Nordeste: R$347.798.000
  • Região Centro-Oeste: R$235.964.000
  • Região Norte: R$133.579.000
*fonte IBGE 2010

Do Sul do país veio um comentário polêmico (via twitter) de uma garota, torcedora do Flamengo, referindo-se aos nordestinos como índios, bugres e feios após derrota para o Ceará. O engraçado é que ninguém a avisou (fica a dica para a nação Rubro-Negra) que tem mais de 11,93 milhões de flamenguistas no Nordeste contra 11,45 milhões no Sudeste, só para se ter uma vaga idéia do que isso significa essa torcida no Nordeste é mais que o triplo de qualquer outra de qualquer outro time, ou seja, difamar besteiras racistas contra nordestinos com intuito de defender a honra do Flamengo é no mínimo ilógico.


Outro caso de notoriedade pública foi o da estudante Mayara Petruso, que no auge da sua inteligência civil (pasme ela é estudante do curso de Direito) postou na rede social “faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado”. Sua raiva era doravante da eleição de Dilma,  para Mayara “dêem direito ao voto para os nordestinos e afundem o Brasil...” os nordestinos representam uma ameaça a democracia pois para ela “nordestino não é gente”. Absurdos a parte, criou-se um mito social incabível, de que os nordestinos não colaboram (e o pior) atrapalham o desenvolvimento do país, seja economicamente ou mesmo politicamente.


Vendo por olhos céticos tais afirmações não surgem do nada na cabeça dos analfabetos virtuais, e olha que cada vez mais graduam analfabetos nas universidades deste país. Nunca houve tanto analfabetismo como agora. Pensamentos como a da torcedora do Flamengo e o da estudante de Direito são mais que meras opiniões pessoais, são sintomas inerentes de uma tendência social perigosa.


Adotando essa linha de raciocínio e tomando como seu, há um absolutismo de massa, um relativismo social, uma complacência inoportuna de um ato vago, porém não isolado. A retaliação é um momento, mas há toda a divulgação e extensão do problema. Os analfabetos andam em bandos, pois não se sustentam singularmente, precisam de apoio para assegurar seu retweet neural.

O futebol deveria ser coroa, celebração, esporte, paixão. Mas tem vezes que o campo é só um reflexo da vida humana mostrando nossa fúria, inconstância, contradição e mesmo quando há empate, fica claro a nossa incapacidade de ser igual.











*Magô torcedora de carteirinha dos times da série A3 dos campeonatos regionais.

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Baú da Magô